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Behaviorismo Radical e Criatividade?

21 dez

Skinner - Pai do Behaviorismo Radical

Uma grande impostura intelectual utilizada para falsear o Behaviorismo Radical (doravante, Behaviorismo) no âmbito dos estudos de aquisição de linguagem é a questão da criatividade. Dizem que o Behaviorismo é o paradigma do S-R (estímulo e resposta) e que o falante é um sujeito passivo diante ao mundo. Essas afirmações vêm creditadas, principalmente, ao livro “O Comportamento Verbal”, de Skinner (1957), ou seja, advogam que Skinner postulava o homem na perspectiva apresentada anteriormente.

Acontece que na primeira página do livro “O comportamento Verbal” Skinner faz a seguinte afirmação:

Os homens agem sobre o mundo, modificam-no e, por sua vez são modificados pelas [sic] conseqüências de sua ação. Alguns processos que o organismo humano compartilha com outras espécies alteram o comportamento para que ele obtenha um intercâmbio mais útil e mais seguro em determinado meio ambiente. Uma vez estabelecido um comportamento apropriado, suas [sic] conseqüências agem através de processo semelhantes para permanecerem ativas. Se, por acaso, o meio se modifica, formas antigas de comportamento desaparecem, enquanto novas [sic] conseqüências produzem novas formas. (SKINNER, 1978: 15)*

Pensemos, se logo no início do livro o autor defende que o homem também modifica o meio e que é por ele modificado, dificilmente, ele se contradiria tanto ao ponto de falsear seu próprio pressuposto inícial. Assim, desmistificamos o fato de o Behaviorismo Radical não explicar a questão da criatividade comportamental do indivíduo. Skinner concebia o homem pelo tripé da ontogênia-filogenia-cultura, isto é, o homem é um “resultado” de sua história individual, da história de sua espécie (a genética) e da cultura na qual está inserido; e, o mais importante, é sempre frizar que tais contigências determinantes da condição de ser do homem estão em constante transformação.

Essa relação pode ser pensada em um recorte ideológico da metafísica da subjetividade do filósofo Heidegger, isto é, o homem altera o todo e por fazer parte desse todo é também alterado. É uma relação ora complementar ora dialética e, sobretudo, complexa.

Bem, nos próximos posts sobre Behaviorismo Radical, destricharemos melhor essa noção de criatividade conforme postulou Skinner, lembrando, é claro, que tais explicações estarão pautadas em um livro de 1957, isto é, em determinados aspectos não funcionará ou será muito rústica, levando-nos a grande possibilidades de pesquisas futuras.

É interessante salientar, para aqueles que tiverem interesse em se aprofundar na temática, o trabalho de Carmen S. M. Bandini & Júlio C. C. de Rose, uma vez que os teóricos contribuem significamente para a retomada das discussões psicolinguísticas no campo do Behaviorismo Radical. A dica de leitura é o artigo  “Chomsky e Skinner e a polêmica sobre a geratividade da linguagem” (clique sobre o nome do material e você será encaminhado para o artigo na base Scielo).

Vale lembrar, sempre, para fins de reflexão, que uma criança que nunca escutou a palavra “Austrália”, nunca a falará. A criatividade linguística está ligada ao paradigma de que o falante constrói baseado em sua experiência empírica no mundo. A criança fala “fazi” sem nunca antes ter escutado porque segue um paradigma de conjugação já escutado anteriormente e cria neologismos pela combinação de micro e/ ou macro experiências vivenciadas, e é, claro, quando novas (não resultantes de cominações estruturais) estruturas surgem, pode entrar em cena o aparato filogenético, que, por si só, é complexíssimo. Enfim, é uma longa discussão e a aprofundaremos melhor em posts posteriores. Acompanhe!

Andre Luiz Mendes Pereira

*Original de 1953 sob o título de “Verbal Behavior”.

Para citar esse material: PEREIRA, A. L. M. Behaviorismo e Criatividade Verbal?. Aquisição de Linguagem. Disponível em: <https://aquisicaodelinguagem.wordpress.com/2011/12/21/behaviorismoecriatividade/&gt;. Acesso em: data de acesso.

REFERÊNCIAS:

BANDINI, Carmen Silvia Motta; ROSE, Júlio César C. de. Chomsky e Skinner e a polêmica sobre a geratividade da linguagem. Rev. bras.ter. comport. cogn.,  São Paulo,  v. 12,  n. 1-2, jun.  2010 .

SKINNER, B. F. O comportamento verbal. SKINNER, B. F. São Paulo: Cultrix, 1978. 1978) O comportamento verbal. São Paulo: Cultrix/Edusp.

 
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Publicado por em 21 de dezembro de 2011 em Aquisição de Linguagem, Behaviorismo

 

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