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Compreendendo os pressupostos do Gerativismo – Parte I

22 dez

O gerativismo é uma corrente teórica que surgiu em 1959 como um movimento em oposição aos pressupostos do behaviorismo radical e, por assim dizer, em oposição a qualquer pressuposto de aquisição de linguagem não-inatista. A teoria foi fundada por Noam Chomsky com a publicação da resenha “A Review of B. F. Skinner’s Verbal Behavior” (Uma revisão de ‘O comportamento Verbal’ de B. F. Skinner), na qual o autor fazia fortes críticas aos pressupostos estabelecidos por Skinner em seu arcabouço teórico.

As principais colocações de Chomsky nesse trabalho eram: existe uma predisposição inata para a linguagem; existe algum aparato mental ou cerebral* voltado especificamente para a linguagem; os indivíduos não nascem como uma página em branco; o homem cria e re-cria a linguagem a todo instante (criatividade), isto é, existe uma geratividade** verbal intrínseca ao comportamento linguístico.

Tais pressupostos culminaram na postulação (hipotética) da Gramática Universal (GU), um módulo mental/ cerebral* voltado exclusivamente para sintaxe; grosso modo diz-se sintaxe, mas alguns autores já defendem outros aspectos, como fonologia, morfologia e até pragmática (essa discordância se deve ao fato de que ser gerativista não significa ser chomskyano). Tal GU (salvo em casos de anormalidade) está garantida a todos os falantes e compõe, assim, o sistema de competência linguística do indivíduo.

Além do sistema de competência, o falante possui também o sistema de desempenho, ou seja, a “estrutura” responsável pela forma como o indivíduo utilizará essa competência. Esse sistema é composto pelos sistemas sensório-motor (SM), responsáveis pela materialização do significado, isto é, responsável pelo significante (sons, gestos, etc.), e é composta também pelo sistema conceitual-intencional (CI), responsável pela constituição do significado. Ambos sistemas, o SM e o CI, recebem os spell-outs (leituras computacionais) da GU e os materializam no que conhecemos por língua: o SM e o CI são sistemas de interface da GU.

Sistema Computacional

A GU, o módulo responsável pela sintaxe, ou, metaforicamente falando, o órgão da sintaxe, funciona como um sistema computacional para que falemos. Confere, sobretudo, as propriedades linguísticas das quais fazemos uso quando falamos. Vejamos apenas um exemplo simples (SILVA (2011:11)  de comando dado pela GU que impede a enunciação de frases agramaticais:

(1) a. João abriu a porta.
b. A porta abriu.
c. Essa porta abre facilmente.
(2) a. João pintou a janela.
b. *A janela pintou.
c. Essa janela pinta rapidamente.

Pensemos, se a estrutura sintático-frasal de ambos enunciados são iguais (sujeito verbo predicado), por que o primeiro enunciado sofre alternância em “b” e o segundo não?! A resposta é que existem propriedade sintáticas dentro dos verbos (cf. Silva, 2011) que impedem esse tipo de processo. As informações dessa natureza são todas interpretadas pela GU.

Por esse e muitos outros motivos o gerativismo domina os estudos de aquisição na atualidade, isto é, a teoria explica (mesmo que baseada em uma estrutura mental/ cerebral hipotética) como um fenômeno complexo como esse acontece.

Enfim, falar de gerativismo é demorado e requer muito estudo e leitura. Por hoje é só e no próximo post sobre essa temática continuaremos discutindo sobre os pressupostos iniciais da corrente, abordando o papel do “social” para os estudos gerativistas.

*Cérebro é a estrutura física e mente é a representação virtual dessa estrutura.
** Foi frente a essa “geratividade” da linguagem que a teoria recebeu o nome de Gerativismo.

Andre Luiz Mendes Pereira

Para citar esse material: PEREIRA, A. L. M. Compreendendo os pressupostos do Gerativismo – Parte I. Aquisição de Linguagem. Disponível em: <https://aquisicaodelinguagem.wordpress.com/2011/12/22/gerativismoparte&gt;. Acesso em: data de acesso.

REFERÊNCIAS:

CHOMSKY, N. Arquitetura da linguagem. Bauro, SP: Edusc, 2008.

————-. The Minimalist Program. Cambridge, MA: The MIT Press, 1995.

SILVA, C. F.  Construções Ergativas e Médias: Uma Distinção em Termos Aspectuais e Semânticos. Dissertação de Mestrado. Universidade de Brasília, 2011.

 
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Publicado por em 22 de dezembro de 2011 em Aquisição de Linguagem, Gerativismo

 

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